terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Dispersa

 Eu acordo em casa,
desço para a cozinha onde está meu pai.
 Sento no sofá tomando o café que
minha mãe fez depois de colocar os sapatos.
 Estou enfim em casa
enquanto lá em cima minha irmã ainda dorme.
 Doce lar.
 Não, não estou lá.
 Pego a estrada todos os dias congestionada
para estudar.
 Imagino como seria ir na direção contrária
ou mais além
 Vejo meus amigos, meus queridos.
 Trabalho minha mente e o raciocínio
todos os dias.
 Mas não, não estou lá.
 Volto pela mesma estrada congestionada com os mesmos carros
à uma mesma cama, às mesmas pessoas.
 Imagino como seria ser sozinha
às vezes.
 Como, passo o tempo, durmo
 E mesmo com o tempo, não,
não estou lá.
 Chegam os bons dias.
 Estrada além, árvores, céu. Sem camas, piscina, cigarros e carros.
 Chão, trilha, ar, música, Bics e folhas em branco.
 Obras de palavras poderosas e Thoreau.
 Estou?

sábado, 8 de setembro de 2012

caminhada cíclica

Lá se vai ela. Lá se foi ela. Não olhou muito pra trás, nem tão pouco pra frente, apenas foi. A cabeça pesava demais pra poder ter um pensamento leve, e seus olhos não mais enxergavam o que havia na clareza do seu amor. Amor que nunca teve, na verdade nem sabia como soletrava nem como fazia pra sentir, nem mesmo mentir sobre o que não sabia. E foi assim que ela foi. Foi assim que ela nunca mais voltou, apenas se esgazeou em um imaginário sem fim, nem a mais bela utopia poderia lhe tirar desse transe incolor e indolor. Havia o cheiro ainda, mas era como uma briza de solidão, que emergia de todas as fendas que escondiam seus fâmulos observadores da mais bela tristeza que a envolvia. Ela nunca soube o porquê de toda aquela escuridão surgir em meio a uma plantação de alegrias repentinas em um chão de uma felicidade estereotipada. Ela não conseguia mais, era um ardor tentar sair e uma tortura aproximada da morte, não havia céu e inferno. O purgatório foi desabilitado por uma nuvem de insanidade e nenhuma pureza angelical poderia reverter o fluxo do abandono. Cinzento era como sua retina se encontrava naquele momento em que o ceticismo era algo inutilizável, e uma atitude indiferente apenas ratificaria um mundo em que a complexidade se tornara comum.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

não existe amor em SP

    "Não existe amor em SP / Os bares estão cheios de almas tão vazias". Assim diz a música. E quem é otimista o suficiente para discordar? Nunca o mundo esteve tão carente de amor, de respeito entre as pessoas, de preocupação com o bem-estar do próximo. Nunca o "eu" esteve tão em evidência, em detrimento do "nós";
    Qual a principal justificativa? Falta de tempo. Os objetivos pessoais ocupam toda a nossa vida, não resta um único segundo para sequer pensar no resto do mundo, imagine só fazer algo por ele. Outra desculpa comum: de que adianta fazer algo se ninguém mais faz nada? Esse raciocínio não poderia estar mais equivocado. Juntos, somamos mais de 7 bilhões de pessoas. Se cada um cedesse um minuto que seja do seu dia em prol do bem comum, aonde estaríamos? Em um mundo um pouco mais igualitário, provavelmente. Parece um clichê, e na verdade é mesmo, mas mesmo que repetido incansavelmente, as pessoas parecem não o compreender.
    Felizmente, necessidade gera reação. A medida que nossa carência de amor e altruísmo aumenta, aumenta também o número de pessoas dispostas a tomar atitudes, grandes atitudes (porque uma atitude com o objetivo de beneficiar o próximo, independentemente de sua simplicidade, será sempre grandiosa). Exemplos? A pequena Rachel Beckwith, que, aos 9 anos de idade, estabeleceu como objetivo juntar US$ 300 para doar a uma ONG que levaria água a uma pequena comunidade na África. A menina sofreu um grave acidente de carro e morreu, mas sua história mobilizou pessoas de todo o mundo, que fizeram doações e conseguiram arrecadar mais de US$1 milhão. Essa sim é uma verdadeira história de heroísmo, e quantos outros heróis anônimos temos por aí?    
    Assistimos a filmes com histórias de amor e altruísmo como assistimos à ficções científicas. Interessante, bacana, mas muito longe da realidade. Pelo contrário, essas histórias estão tão ao nosso alcance como qualquer outra. Me resta a esperança de que, cada vez mais, casos aleatórios (e infelizmente, ainda raros) como o de Rachel se tornem comuns e cotidianos. E, mais do que esperança, a vontade de, todos os dias, fazer o que eu puder para contribuir com um mundo como ele precisa ser: “um por todos, e todos por um”.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

curto prazo

Há quem diga que para ser feliz a pessoa deve fazer primeiro algo que forneça dinheiro e no futuro será livre pra fazer o que gosta, o que tem vocação e/ou fazer o uso do famoso dom. Mas espera.. qual será o tempo que você vai poder disponibilizar para fazer o que bem entende após anos se dedicando à um trabalho cansativo que só o desgastou e o fez perder mais tempo do que se já estivesse morto? Ou uma situação mais dramática ainda: lá está você preparando sua aposentadoria para se dedicar ao seu único sonho e um imprevisto acontece e você é obrigado a deixar esse plano. O sonho se foi deixando rastros de insônia.
Não sonhe a longo prazo, pois o longo prazo pode nunca chegar, e o que sobra é o mínimo tempo possível e disponível para realizar algum sonho apressado. Dificuldade? Se não houver não terá graça, porém não virará desgraça, mas fica aquele gosto de água com açúcar: é fácil de se fazer mas o efeito é a curto prazo.

Não existem mais diários. Falta tinta.
Não existem mais corsários. Falta mar.
Não existem mais canários. Falta galho.
Não existem mais orquidários. Falta terra.
Não existem mais visionários. Falta córnea.
Não existem mais comentários. Falta tato.
Não existem mais aniversários. Falta doce.
Não existem mais adversários. Falta guerra.
Não existem mais alienatários. Falta controle.

Existem sonhos, porém são todos depressionários.

a um velho e grande amigo


    Velhos e grandes amigos se bastam. Não exigem muito do mundo e da vida quando têm um ao outro. Mesmo em meio ao completo caos, sabem que a paz está a apenas um telefonema de distância.
    Podem facilmente passar juntos um domingo preguiçoso jogados no sofá, com um bom livro, uma xícara de café e uma música qualquer ao fundo, sem necessidade de preencher o silêncio o tempo todo, para mostrar o quanto são brilhantes e interessantes. Mas podem também debater apaixonadamente sobre quase tudo, sobre poesia, política e filosofia, amores e família, sobre banalidades.
   Se brigam? Brigam, e muito. Talvez por serem muito parecidos, ou muito diferentes. Ou simplesmente por conhecerem muito a fundo os defeitos um do outro. Quem melhor para conhecer (e apontar) seus piores defeitos do que um grande amigo? Mas ninguém mais tem esse direito. Pobre do desavisado que critica (mesmo que com razão) seu grande amigo... Que audácia! Arma-se uma verdadeira guerra, e o desavisado, com toda a certeza, jamais ousará criticar-lhe novamente.
    Cada um tem sua vida, sua rotina. Tem família, amores, outros amigos, colegas. Mas quando estão juntos, entram em um mundo só seu, no qual outros já tentaram muitas vezes encontrar um espacinho, mas sem nenhum sucesso. Tudo o que já viveram juntos, que compartilharam, torna esse mundo tão singular e, portanto, incompreensível a olhos alheios.
    Talvez a vida lhes empurre por seus caminhos tão tortuosos, e em algum ponto eles percebam que estão tão distantes... Mas ainda assim, velhos amigos sempre serão velhos amigos. E no dia que conseguirem se encontrar novamente, vão se abraçar como se tivessem se visto ontem, e rir da vida e de si mesmos como sempre riram. Nenhum riso é mais feliz do que aquele compartilhado com um velho amigo.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

desfechos

    E lá estavam, reunidos novamente por um (in)feliz acaso. Dez minutos da conversa mais superficial que já tiveram. Bonita a festa, não? Já fui em melhores... Como se, há um tempo que agora lhes parecia perto da eternidade, não tivessem sido a vida inteira um do outro.
    Quando menos se espera, ele chega: o silêncio. Aquele silêncio desconfortável e deslocado, no qual a tensão não passa despercebida nem ao olhar mais desatento. Aquele, que pode terminar de infinitas maneiras, mas ninguém pode saber exatamente qual vai ser.
    Quantas noites de sono ela perdera pensando nesse momento? De quantas cenas e desfechos seu espelho fora um fiel espectador? Milhares de frases pipocam em sua cabeça numa velocidade vertiginosa, e cada uma carrega consigo um final singular para aquela noite. Senti e sinto sua falta, achei que iria morrer quando me deixou. Já passou, estou bem. Eu poderia te matar nesse exato momento! Me leva pra sua casa? Por um minuto lhe escapa o domínio das palavras.
    Ela recupera a fala, e de tantas possibilidades, ela escolhe a mais improvável (e dolorosa):
    - Foi bom te ver. - e vai embora, simplesmente, sem se permitir olhar para trás uma vez sequer, ao encontro de mais uma infinita noite sem paz.

domingo, 5 de agosto de 2012

d.r. espontânea I

- Vai ficar aí mudo?
- Mudo por quê? Não tô falando?
- Não vem me falar que você tá normal... te conheço.
- Gosto de ter meus momentos de silêncio, nunca ouviu falar disso?
- Pára de ser ridículo e fala logo o que você tem.
- Será que tá passando filme na tv?
- Não vai falar mesmo né?
- Sobre...?
- Não to acreditando que isso seja uma conversa. Deus! Como você me irrita.
- É bobeira, desencana... sobrou algo de ontem?
- Já sei.
- Sabe...?
- C-i-ú-m-e-s!
- ...
- Não quer falar não fala... mas sei que quando você fica assim é ciúmes.
- Agora não posso mais ficar quieto?
- Você fala mais que mulher em banheiro.
- Que comparação em...
- Então pára de frescura e fala logo o que eu fiz.
- O mundo não gira ao seu redor.
- Gira sim, e o que eu chamo de mundo você pode ver se olhando no espelho.
- Eu...
- ..."te amo"?
- Não ia falar isso.
- Você nunca fala "isso"!
- Já disse várias vezes. E não preciso transformar num mantra.
- Não vou discutir mais com você. Me cansou!
- Tá bom, vou ver filme...
- E estou indo dormir.
- Não vai comer nada?
- Regime.
- Só de semana?
- Idiota!
- Foi aquela hora...
- Hã!
- Que você ficou conversando um tempão com seu "amigo".
- Só me faltava essa. Era um amigo que não via há um tempão!
- Hm...
- Dois...
- Não é pra ter graça!
- Tô rindo de você todo emburradinho por causa de besteira.
- Se você diz...
- Tô indo dormir... Filme ou cama?
- Já vi esse filme 3 vezes mesmo...
- Bobo! Vem logo.


de início

Pode ser uma, duas, três ou pode ser dez pessoas que escreverão nesse blog, pode ser até mesmo você. O importante é que o coletivo anula o individualismo e transforma o singular no plural.

Nos ausentamos do pensamento em que não há mais tempo para ler e escrever. Se tiver que ser assim então podem nos chamar de vagabundos, desocupados, desempregados e afins. A ideia principal é  ler e escrever, ler e escrever, ler e escrever, ler e escrever e por último mas não menos importante: LER E ESCREVER!

"If you don't have time to read, you don't have the time (or the tools) to write. Simple as that."
— Stephen King

O blog é simples mas é com carinho.